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Análise de indicadores: 6 armadilhas que passam na revisão

Juro mensal vezes 12, inadimplência com outra definição, base escolhida, correlação vendida como causa: seis armadilhas na análise de indicadores.

Por Paulo Castilho 8 min de leitura

Esquema com o título "Passou na revisão, e a conclusão está errada". À esquerda, uma lista de verificação com quatro itens marcados, gráfico certo, tabela alinhada, fonte citada e números conferem, e um quinto, conclusão, em laranja e com um X. À direita, as seis armadilhas: juro × 12, outra definição, base escolhida, correlação, projeção e meta revisada.
Neste artigo

Algumas armadilhas na análise de indicadores passam por qualquer revisão de formato: o gráfico está certo, a tabela está alinhada, os números conferem com a fonte, e a conclusão está errada. Seis delas aparecem com frequência em apresentações de crédito, cobrança e finanças: multiplicar o juro mensal por 12; comparar taxas com definições diferentes; escolher o ponto de partida que favorece a história; apresentar correlação como causa; projetar o ano a partir dos primeiros meses; e comparar o resultado com a previsão revisada. Cada uma aparece abaixo com dados públicos, como costuma ser apresentada e corrigida, e com a pergunta que identifica o problema.

Este é o quarto texto da série. Os anteriores tratam de qual gráfico usar, da ordem dos slides e de seis erros de leitura que mudam a conclusão.

1. Juro mensal multiplicado por 12#

Em agosto de 2026, a taxa média de juros do crédito com recursos livres a pessoas físicas era de 4,09% ao mês. Multiplicada por 12, dá 49,1% ao ano, e é assim que ela costuma aparecer em comparação de custo de carteira, de renegociação ou de desconto em acordo.

Gráfico de colunas no estilo padrão do Excel com o título “Custo médio do crédito pessoal: 4,09% ao mês, ou 49,1% ao ano”: uma coluna com 4,1% ao mês e outra com 49,1% ao ano, calculada como a taxa mensal vezes 12.

Juros se acumulam sobre juros. A taxa anual equivalente a 4,09% ao mês é (1 + 0,0409) elevado a 12, menos 1: 61,7% ao ano, exatamente o que o Banco Central publica na série anual da mesma taxa. A diferença cresce com a taxa: no cartão de crédito rotativo, 15,18% ao mês viram 182% ao ano na multiplicação e 445% na conta certa.

Gráfico de barras com o título “4,09% ao mês são 61,7% ao ano, não 49,1%; no rotativo, 445%, não 182%”. Para o crédito livre às pessoas físicas, a barra da taxa mensal vezes 12 marca 49,1% ao ano e a da taxa composta, 61,7%. Para o cartão de crédito rotativo, 182% e 445%. Nota: a taxa anual publicada pelo Banco Central é a mensal composta.

O mesmo cuidado vale no sentido contrário: dividir uma taxa anual por 12 superestima a mensal. E vale para qualquer taxa que se acumula, como o crescimento mensal de uma carteira ou a correção de uma dívida.

A pergunta a fazer: essa taxa anual foi composta ou multiplicada?

No Excel: a taxa anual equivalente é =(1+B2)^12-1, com a taxa mensal em B2. A mensal equivalente a uma anual é =(1+B2)^(1/12)-1.

2. O mesmo nome com definições diferentes#

“Inadimplência” não tem uma definição só. O Banco Central chama de inadimplência a parte da carteira com atraso acima de 90 dias. Muitas empresas acompanham o atraso a partir de 15 ou de 30 dias, porque é aí que a cobrança começa. Quando as duas medidas vão para o mesmo slide, a comparação fica assim:

Gráfico de colunas no estilo padrão do Excel com o título “Nossa inadimplência, 12,5%, está bem acima do mercado, 8,0%”: uma coluna para “nossa carteira”, com 12,5%, e outra para “mercado”, com 8,0%. Nota: as duas colunas são a mesma carteira, o crédito livre às pessoas físicas, medido de duas formas.

As duas colunas são a mesma carteira: o crédito livre a pessoas físicas em agosto de 2026. Com atraso entre 15 e 90 dias, 4,5% do saldo; acima de 90 dias, 8,0%; acima de 15 dias, a soma, 12,5%. A diferença entre “nossa” e “mercado” é só a régua.

Gráfico de barras empilhadas com o título “A mesma carteira, três taxas: 4,5% (15 a 90 dias), 8,0% (acima de 90) e 12,5% (acima de 15)”. Em agosto de 2025, 7,0% acima de 90 dias e 4,2% entre 15 e 90 dias, somando 11,1%. Em agosto de 2026, 8,0% e 4,5%, somando 12,5%.

O problema não se limita ao atraso. “Recuperação” pode ser sobre a carteira enviada à cobrança ou sobre o saldo vencido; “carteira” pode incluir ou não os contratos baixados para prejuízo; “acordo” pode contar a promessa ou só o primeiro pagamento. Comparar com o mercado, com outra área ou com o ano passado só vale com a mesma definição dos dois lados.

A pergunta a fazer: os dois números usam a mesma definição?

3. O ponto de partida escolhido#

Em dezembro de 2024, a inadimplência do crédito livre a pessoas físicas estava em 5,40%. Uma apresentação daquele mês podia dizer que ela tinha caído 1,07 p.p. desde maio de 2023, o pico do período.

Gráfico de colunas no estilo padrão do Excel com o título “Inadimplência cai 1,07 p.p. desde mai/2023”: duas colunas, 6,47% em maio de 2023 e 5,40% em dezembro de 2024.

Outra apresentação, no mesmo mês e com o mesmo dado, podia dizer que a inadimplência tinha subido 1,31 p.p. desde março de 2021, o vale. As duas frases são verdadeiras. A escolha do ponto de partida decidiu a conclusão.

Gráfico de linha com o título “Em dez/2024, a mesma taxa caiu 1,07 p.p. desde o pico e subiu 1,31 p.p. desde o vale”: a inadimplência do crédito livre às pessoas físicas de janeiro de 2021 a dezembro de 2024, com o vale de 4,09% em março de 2021, o pico de 6,47% em maio de 2023, o ponto de doze meses antes, em dezembro de 2023, e dezembro de 2024. Nota: contra o mesmo mês do ano anterior, a base que não se escolhe, −0,33 p.p.

A correção é usar bases que não se escolhem caso a caso: o mesmo mês do ano anterior, o fim do ano anterior, a meta. Elas são combinadas antes e valem para todos os meses, inclusive os ruins. Quando uma base diferente for necessária, diga por que ela foi escolhida.

A pergunta a fazer: por que comparar com esse mês?

4. Correlação apresentada como causa#

Selic e inadimplência no mesmo gráfico, com dois eixos, sobem e descem juntas. De 2013 a 2026, a correlação entre a Selic e a inadimplência do crédito livre seis meses depois é de 0,80. O slide conclui que os juros explicam a inadimplência.

Gráfico de combinação no estilo padrão do Excel com o título “Juros explicam a inadimplência: correlação de 0,80”: a Selic em colunas azuis no eixo esquerdo e a inadimplência em linha laranja no eixo direito, de 2013 a 2026.

Faça a mesma conta com o desemprego medido pelo IBGE. A correlação com a inadimplência seis meses depois é de −0,74: pelo mesmo raciocínio, menos desemprego causaria mais inadimplência. Ninguém aceitaria essa conclusão, e ela tem a mesma base que a primeira.

Três gráficos de linha alinhados, de 2013 a 2026, com o título “Pela mesma conta, menos desemprego explicaria mais inadimplência: correlação de −0,74”. Em cima, a Selic, com correlação de 0,80 com a inadimplência seis meses depois; no meio, o desemprego, com correlação de −0,74; embaixo, a inadimplência do crédito livre às pessoas físicas. Nota: duas séries com tendência se correlacionam sem que uma cause a outra.

Duas séries que têm tendência no mesmo período se correlacionam, tenham ou não relação entre si. Juros provavelmente afetam a inadimplência; o gráfico apenas não prova isso, nem diz quanto. Para uma conclusão de causa, falta um mecanismo plausível, a defasagem certa e o controle dos outros fatores que mudaram junto. Numa apresentação, a forma honesta é descrever o que se vê (“as duas andaram juntas”) e dizer o que não se sabe.

Em cobrança, a versão mais comum dessa armadilha é atribuir a melhora do mês à ação que começou no mesmo mês: um canal novo, uma campanha, uma mudança na régua. Sem um grupo de comparação que não recebeu a ação, não há como separar o efeito dela do resto.

A pergunta a fazer: o que mais mudou no mesmo período?

5. Um mês projetado para o ano#

Em 2025, janeiro e fevereiro somaram R$ 0,60 trilhão em concessões de crédito livre a pessoas físicas. Multiplicado por 6, isso projeta R$ 3,57 trilhões para o ano.

Gráfico de colunas no estilo padrão do Excel com o título “Concessões devem fechar 2025 em R$ 3,57 trilhões”: uma coluna com R$ 0,60 trilhão em janeiro e fevereiro e outra com a projeção de R$ 3,57 trilhões, feita multiplicando os dois meses por 6.

O ano fechou em R$ 3,84 trilhões. Não foi azar: janeiro e fevereiro são meses fracos, como mostrou a parte sobre sazonalidade, e a mesma projeção ficou abaixo do ano em 12 dos 13 anos desde 2013. A única exceção foi 2020, quando a pandemia derrubou o resto do ano.

Usar a fatia que janeiro e fevereiro costumam ter no ano, calculada com os três anos anteriores, tira o viés: o erro passa a ser para cima ou para baixo. Mas não tira o erro, que de 2016 a 2025 foi de −16% a +14%.

Gráfico de colunas agrupadas com o título “Janeiro e fevereiro × 6 ficou abaixo do ano em 9 de 10 anos; com a sazonalidade, o erro muda de lado, mas não some”: erro da projeção do ano feita com janeiro e fevereiro, de 2016 a 2025, em porcentagem do ano realizado. As colunas cinza, da projeção simples, ficam abaixo de zero em todos os anos menos 2020. As colunas em azul-marinho, da projeção ajustada pela sazonalidade, ficam dos dois lados do zero, de −16% em 2021 a +14% em 2020.

Projeção feita com dois meses de dados é uma faixa, não um número. A forma de apresentá-la é com o intervalo que os erros dos anos anteriores sugerem, revisado a cada mês, e com a diferença entre a projeção e a meta, não entre a projeção e o “fechamento”.

A pergunta a fazer: quanto essa projeção errou nos anos anteriores?

6. Comparar com a previsão revisada#

Toda semana, o Banco Central publica na pesquisa Focus a mediana das expectativas do mercado para a inflação. No fim de dezembro de 2025, ela era de 4,31% para o ano. O IPCA de 2025 fechou em 4,26%. Um slide de resultado diria que a previsão acertou.

Gráfico de colunas no estilo padrão do Excel com o título “Previsão de inflação acertou: 4,31% previstos, 4,26% realizados”: duas colunas, previsto e realizado.

Em janeiro de 2025, a expectativa era de 5,00%; em março, chegou a 5,68%. A previsão de dezembro chega perto porque, quando é feita, 11 meses do ano já são conhecidos.

Gráfico de linha com o título “Em janeiro, o mercado esperava 5,00% para 2025; a previsão de dezembro acerta porque 11 meses já são conhecidos”: a mediana das expectativas para o IPCA de 2025 na pesquisa Focus, semana a semana, de janeiro de 2024 a dezembro de 2025. Começa em 3,5%, sobe para 5,00% em janeiro de 2025, chega ao pico de 5,68% e desce até 4,31% no fim de dezembro. Uma linha tracejada laranja marca o resultado, 4,26%.

O padrão se repete em todos os anos recentes:

AnoPrevisão em janeiroPrevisão em dezembroRealizadoErro em janeiro (p.p.)Erro em dezembro (p.p.)
20213,34%10,01%10,06%+6,72+0,05
20225,04%5,62%5,78%+0,75+0,16
20235,36%4,46%4,62%−0,74+0,16
20243,90%4,89%4,83%+0,93−0,06
20255,00%4,31%4,26%−0,74−0,05

Fonte: Banco Central do Brasil, pesquisa Focus (mediana, última semana até 10 de janeiro e até 31 de dezembro de cada ano) e IPCA do IBGE. Erro: realizado menos previsto.

Dentro das empresas, a versão dessa armadilha é o orçamento revisado no meio do ano. “Ficamos 1% abaixo do previsto” pode querer dizer 1% abaixo da revisão de outubro e 12% abaixo do orçamento aprovado em dezembro do ano anterior. As duas comparações são úteis, e as duas precisam aparecer: a da revisão diz se a última estimativa foi boa; a do orçamento original diz o quanto o ano saiu do plano.

A pergunta a fazer: comparado com qual versão da meta?

As seis perguntas#

  1. Essa taxa anual foi composta ou multiplicada?
  2. Os dois números usam a mesma definição?
  3. Por que comparar com esse mês?
  4. O que mais mudou no mesmo período?
  5. Quanto essa projeção errou nos anos anteriores?
  6. Comparado com qual versão da meta?

Juntas com as seis da parte 3, elas cobrem boa parte do que costuma passar despercebido numa reunião de resultado. Quem prepara o material ganha mais respondendo a elas no próprio slide ou no anexo do que esperando a pergunta.

Fontes#

Dados do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, consultados em outubro de 2026, com dados até agosto de 2026: taxa média de juros do crédito livre a pessoas físicas, mensal (série 25462) e anual (20740), e do cartão de crédito rotativo, mensal (25477) e anual (22022); inadimplência acima de 90 dias (21112) e atraso entre 15 e 90 dias (21033) do crédito livre a pessoas físicas; Selic acumulada no mês, anualizada (4189); taxa de desocupação da PNAD Contínua, do IBGE (24369); concessões de crédito livre a pessoas físicas (20662); e IPCA, do IBGE (433). Expectativas de mercado da pesquisa Focus, pela API de expectativas do Banco Central. As correlações usam dados mensais de janeiro de 2013 a agosto de 2026.

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