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Cobrança digital ou humana: como segmentar por canal

Quem vai para a cobrança digital e quem fica com o atendente: o que os estudos mostram, o acesso real do brasileiro ao digital e um critério por tipo de devedor.

Por Paulo Castilho 6 min de leitura

Esquema com o título "Cobrança digital ou humana: como segmentar por canal". Três cartões: mensagem digital, para quem pode pagar e deixou para depois; atendente, para quem não pode pagar ou contesta a cobrança; fora do digital, 28 milhões de brasileiros sem internet, 16 milhões deles com 60 anos ou mais.
Neste artigo

Mandar toda a carteira para o digital desperdiça o canal e a equipe. Os estudos com sorteio mostram que a mensagem funciona melhor com quem tem dinheiro e deixou para depois: num banco colombiano, o efeito se concentrou em clientes com bom histórico de crédito e dívida sem garantia, e foi nulo no crédito com garantia. Conversar com um atendente produz efeitos muito maiores, mas custa mais por contato. E o público do digital no Brasil é, em boa parte, alguém com celular e sem computador, que muitas vezes fica sem dados. Para segmentar por canal, a operação define, para cada grupo de devedores, se o digital resolve sozinho, se só prepara a conversa com o atendente ou se não chega ao devedor.

Este é o terceiro artigo da série sobre a digitalização da operação de cobrança.

Para quem a mensagem funciona#

O banco colombiano que testou mensagens por SMS com clientes em atraso, citado no primeiro artigo, olhou também onde o efeito aparecia. Ele se concentrou em quem tinha bom histórico de crédito e em quem estava atrasado em produtos sem garantia. Para o crédito com garantia, como o imobiliário, não houve efeito. Num segundo teste, com clientes em dia, a mensagem também não mudou nada.

A leitura é coerente com o que a série sobre tipos de inadimplentes mostrou a partir do estudo de Bristol: a mensagem lembra o devedor e facilita o pagamento, sem alterar a renda dele. Funciona com quem pode pagar e deixou para depois, e com quem esqueceu. No Recife, o teste do Banco Mundial com contas de água mostrou um terceiro caso: para quem não sabe pagar pelo celular, a mensagem que ensina a pagar funcionou, e o lembrete simples não.

Para quem a conversa faz diferença#

No banco alemão citado no primeiro artigo, falar com um atendente aumentou em 34,4 pontos percentuais o pagamento em dia. Os pesquisadores também mediram que a simpatia na voz do atendente importava. Na financeira chinesa que comparou ligações de cobrança feitas por inteligência artificial e por pessoas, a diferença a favor das pessoas era de 12 pontos no 30º dia de atraso, e caía para menos de 1 ponto quando um atendente assumia a partir do sexto dia.

Os dois resultados apontam para o mesmo desenho: o automático faz o primeiro contato, e a pessoa entra quando a conversa pode mudar o resultado. Isso inclui quem precisa de um acordo que caiba na renda, quem contesta a cobrança e quem está numa situação que o sistema não sabe ler.

O acesso real ao digital#

O canal digital pressupõe um aparelho, dados e alguma familiaridade com aplicativos. A pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br, mostra o tamanho dessa condição no Brasil.

Gráfico de barras com o título “No Brasil, o público do digital usa sobretudo o celular e muitas vezes fica sem dados”. Indicadores da pesquisa TIC Domicílios: 60% dos usuários de internet acessam só pelo celular (2024); 39% das pessoas com celular ficaram sem pacote de dados ao menos uma vez nos últimos 3 meses (2025), e 68% entre quem tem celular pré-pago; 45% dos usuários de internet usaram copiar e colar (2024). Em destaque: 28 milhões de brasileiros não usam a internet (2025), 16 milhões deles com 60 anos ou mais.

Em 2024, 60% dos usuários de internet só acessaram a rede pelo celular, e só 45% disseram ter usado o recurso de copiar e colar. Em 2025, 39% das pessoas com celular ficaram sem pacote de dados ao menos uma vez em três meses, proporção que chega a 68% entre os usuários de pré-pago. E 28 milhões de brasileiros não usam a internet; 16 milhões deles têm 60 anos ou mais.

Para a operação, isso tem consequências concretas. Um link para o portal pode não abrir no dia em que o pacote acabou. Uma etapa que pede para copiar um código e colar em outra tela perde parte do público. E uma régua só digital deixa de alcançar justamente uma parcela dos devedores mais velhos e de menor renda.

O regulador financeiro britânico, a FCA, trata isso como dever. O guia sobre clientes vulneráveis, de 2021, pede que as empresas avaliem se um canal só digital ou só por telefone é adequado, que ofereçam retorno de ligação ou atendimento presencial a quem está excluído do digital e que ofereçam ajuda proativa mesmo dentro das jornadas digitais.

Um critério por tipo de devedor#

A série sobre tipos de inadimplentes usou o mapa de Bristol para separar os devedores. Ele serve também para escolher o canal. O sinal de cada grupo vem do que a operação já registra: histórico de pagamento, resultado dos contatos anteriores, reclamações abertas.

GrupoSinal na operaçãoCanal principalPor quê
Pode pagar e deixou para depoisBom histórico, atraso recenteMensagem digital, com link de pagamentoÉ onde os testes com sorteio encontraram efeito
Esqueceu ou se desorganizouAtrasos curtos e recorrentesMensagem e oferta de pagamento automáticoNo Recife, ensinar a pagar funcionou; o lembrete simples, não
Não pode pagarRenda caiu, atraso que cresce, promessa quebradaAtendente, com proposta que caiba na rendaA oferta pesa mais que o canal, e a conversa muda o resultado
Em disputa ou vítima de erroReclamação aberta, contestaçãoAtendimento, com a cobrança suspensaMais mensagem aprofunda a disputa
Sem acesso ao digitalSem resposta a nenhum canal digital, sem e-mail, número fixoTelefone, carta, atendimento presencialO canal digital não alcança esse grupo

A tabela organiza a primeira versão da régua, que precisa ser medida contra um grupo de controle, como mostrará o artigo sobre o funil. A cobrança indevida e o perfil de quem não pode pagar estão detalhados na série anterior.

O corte por atraso que o mercado já usa#

Alguns credores brasileiros já segmentam por estágio da dívida. A Claro informa que negocia pelo WhatsApp faturas com até 45 dias de atraso e manda as mais antigas para um portal de negociação. O Nubank informa que todos os clientes com até 65 dias de atraso recebem comunicação pelo WhatsApp. O corte por atraso é simples de operar, mas mistura grupos: entre os atrasos curtos há quem esqueceu e quem perdeu a renda no mês anterior. Combinar o estágio com os sinais da tabela acima separa melhor.

A armadilha da exclusão#

Uma régua que só fala pelo digital pode melhorar a própria taxa de conversão sem recuperar mais nada: quem não tem acesso some do funil, e o percentual de acordos sobre os contatados sobe. Por isso o grupo sem acesso precisa aparecer na medição como grupo, com seu próprio canal e seu próprio resultado. A medição é tema do décimo primeiro artigo.

O próximo artigo começa a parte da série dedicada ao WhatsApp: o que a política da Meta diz sobre cobrança.

Fontes#

Tags

Paulo Castilho

Recuperação de crédito e cobrança

Trabalha há 15 anos com recuperação de crédito e cobrança, da carteira corrente à recuperação do que já foi baixado como perda. Escreve sobre estratégia, dados e canais digitais.

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