Pular para o conteúdo
Blog AreaCli

Negócios

Construir ou comprar software (build vs buy): como decidir

Construir ou comprar software (build vs buy): cinco perguntas para decidir entre sistema próprio e solução pronta, e os custos que ficam fora da conta.

Por Paulo Castilho 5 min de leitura

Esquema com o título "Construir ou comprar software: construa o que o cliente percebe". Dois cartões: Construa o que o cliente percebe, como preço, atendimento e experiência do produto; Compre o que toda empresa tem, como contabilidade e folha, e-mail e controle de acesso. Abaixo: a conta cobre cinco anos, com manutenção, dependência e custo de saída.
Neste artigo

Construa quando o software for parte do que diferencia a sua empresa no mercado. Compre quando ele resolver um problema que todas as empresas têm. A maior parte dos erros nessa decisão vem de inverter essa ordem: desenvolver internamente um sistema de folha de pagamento e, ao mesmo tempo, terceirizar o motor de preços que define a margem do negócio.

Para aplicar essa regra, responda a cinco perguntas. Em inglês, a decisão é conhecida como build vs buy.

1. Esse sistema é parte da sua vantagem competitiva?#

Separe as atividades da empresa em dois grupos. No primeiro estão as que o cliente percebe e pelas quais escolhe você: a forma de precificar, o atendimento, a velocidade de entrega, a experiência do produto. No segundo estão as que precisam funcionar, mas não diferenciam ninguém: contabilidade, folha, e-mail, controle de acesso.

Software do segundo grupo quase sempre deve ser comprado. Um fornecedor especializado distribui o custo de desenvolvimento entre milhares de clientes e acompanha mudanças de legislação que, para você, seriam trabalho extra sem retorno. É o que as empresas brasileiras já fazem com a gestão: na pesquisa anual de uso de TI da FGV, com 2.672 empresas no início de 2025, três fornecedores respondiam por 78% dos sistemas integrados de gestão (ERP) em uso: TOTVS (34%), SAP (34%) e Oracle (10%).

Software do primeiro grupo merece análise. Uma solução pronta entrega o mesmo processo que os concorrentes usam, e isso pode anular justamente o que diferencia a empresa.

2. Quanto o processo precisa se adaptar à ferramenta?#

Toda solução pronta embute um jeito de trabalhar. Se o seu processo é próximo do padrão de mercado, adaptar-se ao sistema costuma ser saudável: muitas vezes o padrão é melhor do que o processo atual.

O problema aparece quando a adaptação exige customizações pesadas. Customizar um sistema comprado até ele ficar irreconhecível acumula os custos dos dois caminhos: você paga a licença, paga o desenvolvimento e ainda fica preso às atualizações do fornecedor, que podem quebrar o que foi customizado.

Um sinal prático: se a lista de requisitos que a ferramenta não atende for maior do que a lista do que ela atende bem, comprar a ferramenta equivale a construir em cima de uma base alheia, e a comparação a fazer é com construir do zero.

3. Você tem equipe para manter o sistema por anos?#

O custo maior de um software próprio vem depois da construção, nos anos seguintes: correções, atualizações de segurança, mudanças de infraestrutura, novas integrações e a saída de quem conhecia o código. Numa pesquisa da Stripe de 2018 com desenvolvedores e executivos de seis países, o desenvolvedor médio gastava 17,3 das suas 41,1 horas semanais com manutenção, como correção de defeitos e reescrita de código existente, cerca de 42% do tempo.

Terminar o desenvolvimento também não encerra os problemas. Num CRM de cobrança feito com IA e descrito neste blog, os testes automatizados passavam e, mesmo assim, a confirmação de 200 mil pagamentos levou 104 segundos, perto do limite de 2 minutos da especificação. Problemas assim aparecem depois da entrega e ficam com quem mantém o sistema.

Antes de aprovar um desenvolvimento interno, responda:

  • Quem vai manter o sistema daqui a três anos?
  • O conhecimento está concentrado em uma ou duas pessoas?
  • Existe orçamento recorrente para manutenção, ou só para o projeto inicial?

Se as respostas forem vagas, o sistema próprio tende a virar um passivo que ninguém quer tocar. Se forem claras, o próximo passo é decidir o que documentar antes de começar, assunto do artigo sobre especificação de software.

4. Qual é o custo total em cinco anos, dos dois lados?#

Comparar o preço da licença com o orçamento do projeto distorce a decisão. Os dois lados têm custos que costumam ficar fora da planilha.

CustoComprarConstruir
EntradaImplantação, migração de dados, treinamentoDesenvolvimento, infraestrutura inicial
RecorrenteLicenças, reajustes, módulos adicionaisEquipe de manutenção, infraestrutura, segurança
OcultoCustomizações, integrações, dependência do fornecedorRotatividade da equipe, dívida técnica, documentação
SaídaExportar dados e migrar para outro sistemaReescrever ou substituir um sistema legado

Para dimensionar a conta: na mesma pesquisa da FGV, os gastos e investimentos em TI chegaram a 10% da receita das empresas médias e grandes, e o custo anual de TI por usuário, a R$ 60 mil. Faça a conta em um horizonte de cinco anos e inclua o custo de sair. Uma solução de licença barata que guarda os seus dados em formato fechado pode ter um custo de saída alto.

5. Quanto custa esperar?#

Uma solução pronta costuma entrar em operação em semanas. Um desenvolvimento próprio leva meses até entregar o mesmo nível de funcionalidade. Se o problema está custando dinheiro hoje, esse intervalo tem preço e deve entrar na comparação.

Uma alternativa comum é comprar agora para resolver o problema imediato e reavaliar depois, com mais clareza sobre o que o negócio realmente precisa. Isso só funciona se a solução escolhida permitir exportar os dados sem dificuldade.

A decisão em uma página#

Compre quando:

  • o processo é comum a qualquer empresa do setor;
  • existe fornecedor consolidado, com dados exportáveis;
  • a empresa não tem, nem pretende ter, equipe para manter o sistema.

Construa quando:

  • o sistema sustenta algo que o cliente percebe e valoriza;
  • as soluções prontas exigiriam customização profunda;
  • existe equipe e orçamento recorrente para manter o sistema por anos.

Em muitos casos a resposta é mista: comprar a base e construir apenas a camada que diferencia o negócio, conectada por integrações bem documentadas.

Fontes#

Tags

Paulo Castilho

Recuperação de crédito e cobrança

Trabalha há 15 anos com recuperação de crédito e cobrança, da carteira corrente à recuperação do que já foi baixado como perda. Escreve sobre estratégia, dados e canais digitais.

Leia também