Cobrança digital: o que muda na operação de cobrança
Cobrança digital vista por quem opera: o que os testes com sorteio mostram, onde o digital não substitui o atendente e quais decisões a operação precisa tomar.

Neste artigo
Digitalizar a cobrança muda mais o alcance e o custo da operação do que a resposta de cada devedor. Nos testes com sorteio publicados, uma mensagem de texto reduz o atraso em 4 a 6 pontos percentuais. Num banco alemão, conversar com um atendente aumentou o pagamento em dia em 34 pontos. Em mais de um experimento, mudar a oferta pesou mais do que mudar o canal. O digital dá escala: no Desenrola, 83,5% das negociações feitas na plataforma saíram do celular, e bancos, concessionárias e prefeituras brasileiras já negociam dívidas pelo WhatsApp. Quem dirige a operação precisa decidir o que mandar para o digital, para quem, com que regras e como saber se funcionou.
Este é o primeiro artigo da série sobre a digitalização da operação de cobrança. Os seguintes tratam de cada uma dessas decisões.
O que os testes com sorteio mostram#
Os estudos mais confiáveis sobre mensagens de cobrança sorteiam quem recebe e quem não recebe a mensagem, e comparam os dois grupos. Três deles, em países e carteiras diferentes, chegaram a efeitos parecidos.

Num banco colombiano, a mensagem que lembrava que a maioria dos clientes paga em dia reduziu a chance de atraso em 4,5 pontos, sobre 59% no grupo sem mensagem. Mensagens que apelavam à reciprocidade com o banco ou aos investimentos sociais dele não tiveram efeito. Num banco indonésio, o apelo moral por SMS reduziu a inadimplência do cartão em 4,4 pontos, sobre 66%. Num programa de aluguel social britânico, um SMS semanal reduziu de 57,2% para 51,6% a parcela de inquilinos que atrasou ao menos uma vez, mas não mudou o saldo devedor.
O único teste brasileiro desse tipo que encontramos é sobre contas de água, não sobre dívida vencida. O Banco Mundial e a companhia de saneamento de Pernambuco mandaram nove versões de SMS a cerca de 166 mil clientes do Recife, três dias antes do vencimento. Só funcionaram as que ensinavam a pagar: a que explicava como cadastrar débito automático gerou 9 pagamentos a mais a cada 1.000 clientes, e a que mostrava o pagamento pelo aplicativo da companhia, 11 pagamentos em dia a mais. O lembrete padrão e as mensagens motivacionais não tiveram efeito. A nota do Banco Mundial levanta a hipótese de fadiga: quem já recebe mensagens demais deixa de ler.
O que o digital não substitui#
O contraponto mais forte vem de um banco alemão de crédito no varejo. A primeira ligação de cobrança alcançava o cliente 96% das vezes quando caía num sábado e 43% numa segunda-feira, uma variação que funciona quase como sorteio. Com ela, os pesquisadores estimaram que falar com um atendente aumenta o pagamento em dia em 34,4 pontos percentuais e reduz a inadimplência em 23,8 pontos. O estudo saiu no Journal of Finance em 2025.
Numa financeira online chinesa, ligações de cobrança feitas por inteligência artificial arrecadaram até 9 pontos menos do que as feitas por pessoas, segundo um trabalho ainda não publicado em revista. A diferença praticamente sumia quando um atendente assumia a partir do sexto dia.
Uma mensagem custa centavos, e uma ligação atendida custa minutos de um operador. Pelos números, o ganho da digitalização está em liberar os atendentes para os casos em que a conversa muda o resultado, sem substituí-los por completo. A passagem do digital para o atendimento humano é o tema do décimo artigo.
A oferta pesa mais que o canal#
Numa financeira digital da África Subsaariana, devedores com 90 a 150 dias de atraso receberam por SMS a proposta de quitar em quatro parcelas semanais. A chance de fazer algum pagamento subiu de 16% para 25%. A mensagem que avisava que a quitação devolveria o acesso a novo crédito não teve efeito. O canal era o mesmo nos dois casos; mudou só a proposta.
O resultado conversa com o que a série sobre tipos de inadimplentes mostrou sobre quem não pode pagar: um acordo que não cabe na renda não é fechado, ou é rompido, seja qual for o canal. Se a régua só oferece pagamento à vista, a digitalização leva essa mesma oferta a mais gente, mais depressa.
O Brasil já negocia pelo celular#
A maior experiência pública de renegociação digital no país foi o Desenrola. Na Faixa 1, para renda de até dois salários mínimos ou inscritos no CadÚnico, a negociação só podia ser feita na plataforma do governo, e 83,5% delas foram feitas pelo celular.

Credores de vários setores já operam a negociação no WhatsApp, segundo as próprias páginas oficiais. Caixa e Banco do Brasil oferecem renegociação de dívidas no canal. O Bradesco anuncia o envio ativo de ofertas de renegociação. O Nubank informa que todos os clientes com até 65 dias de atraso recebem comunicações pelo WhatsApp. A Claro negocia pelo canal faturas com até 45 dias de atraso e manda os casos mais antigos para um portal. Em Porto Alegre, o departamento municipal de água informou que 64% do total negociado por meios digitais no seu programa de renegociação de 2025 chegou pelo WhatsApp. No sentido contrário, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional informa que não entra em contato pelo WhatsApp, só por SMS, por causa dos golpes que usam o nome dela.
A política de mensagens do WhatsApp Business, porém, inclui “cobrança de dívidas” numa lista de atividades proibidas na plataforma, sem dizer se isso alcança o credor que fala com o próprio cliente. É o tema do quarto artigo.
As decisões que a operação precisa tomar#
Digitalizar a cobrança é tomar uma sequência de decisões que a régua por telefone e carta deixava implícitas:
- Base de contatos. Que telefone e que e-mail usar, com que base legal, e o que fazer com os contatos de referência e de terceiros, que já renderam condenações a credores.
- Segmentação por canal. Quem vai para o digital, quem fica com o atendente e quem não tem como ser alcançado pelo celular.
- WhatsApp. O que a política da plataforma permite, como os modelos de mensagem são classificados e cobrados, e o que fazer se o número for bloqueado.
- Régua entre canais. Quantos contatos, somando todos os canais, e em que ordem.
- Mensagem e portal. O que escrever para que a mensagem funcione sem parecer golpe, e como o portal leva da mensagem ao acordo.
- Medição. Como saber quanto o digital recuperou além do que seria pago de qualquer jeito, o que exige grupo de controle, e o que medir no sistema de cobrança e não no navegador.
A série segue essa ordem: planejar, operar o WhatsApp, executar e medir.
Fontes#
- Giorgia Barboni, Juan Camilo Cárdenas e Nicolás de Roux, “Behavioral Messages and Debt Repayment”, working paper, 2022 (Review of Finance, 2026).
- Leonardo Bursztyn, Stefano Fiorin, Daniel Gottlieb e Martin Kanz, “Moral Incentives in Credit Card Debt Repayment”, Journal of Political Economy, 2019.
- Behavioural Insights Team, “Applying behavioural insights to reduce rent arrears”, 2018.
- Banco Mundial, nota sobre o experimento com SMS para pagamento de contas de água no Recife, 2023.
- Christine Laudenbach, Jenny Pirschel e Stephan Siegel, “Personal Communication in an Automated World: Evidence from Loan Payments”, CESifo Working Paper 7295, 2021 (Journal of Finance, 2025).
- Choi, Huang, Yang e Zhang, “How Good is AI at Twisting Arms?”, working paper, 2025.
- Innovations for Poverty Action, “Helping borrowers recover from loan default”, 2025.
- Ministério da Fazenda, balanço do Desenrola Brasil, via Agência Brasil, maio de 2024.
- Páginas oficiais de Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Nubank, Claro, DMAE Porto Alegre e PGFN, consultadas em outubro de 2026.
- WhatsApp, Política de Mensagens do WhatsApp Business, atualizada em 23/09/2026.


