Indicadores financeiros: 6 erros que mudam a conclusão
Ponto percentual ou porcentagem, valor sem inflação, taxa que cai porque a carteira cresceu: seis erros na leitura de indicadores financeiros, com dados reais.

Neste artigo
Um indicador financeiro pode estar correto, num gráfico bem escolhido, e ainda assim levar a uma conclusão errada. Seis erros fazem isso com frequência em apresentações de crédito e cobrança: confundir ponto percentual com porcentagem; comparar reais de anos diferentes sem descontar a inflação; comemorar uma taxa que caiu porque a carteira cresceu; ler o total sem olhar as partes; tratar a variação de um mês como tendência; e comparar meses de uma série sazonal. Cada um aparece abaixo com dados públicos do Banco Central, na versão como costuma ser apresentado e na versão corrigida, e com a pergunta que quem recebe a apresentação pode fazer para identificá-lo.
Este é o terceiro texto da série. Os dois primeiros tratam da forma: qual gráfico usar em cada slide e em que ordem apresentar os resultados à diretoria. Aqui, o gráfico pode estar bem feito; o problema é o que o número diz.
1. Ponto percentual ou porcentagem#
A inadimplência do crédito com recursos livres a pessoas físicas foi de 6,97% em agosto de 2025 para 8,01% em agosto de 2026. Isso é uma alta de 1,04 ponto percentual (p.p.), a diferença entre as duas taxas. Também é uma alta de 14,9%, a variação da taxa sobre ela mesma. As duas contas estão certas. O problema é o título que escolhe uma delas e não diz qual.

“Inadimplência sobe 14,9%” pode ser lido como uma taxa que foi de 7% para 22%, ou que chegou a 15%. A forma que não deixa dúvida é dizer de quanto para quanto e dar a diferença em pontos percentuais. A variação relativa, se for útil, vem como complemento.

A confusão piora quando o mesmo material mistura as duas formas: a inadimplência “subiu 1 ponto” num slide e a recuperação “caiu 5%” no seguinte. Uma regra simples resolve: variação de taxa em pontos percentuais, variação de valor em porcentagem.
A pergunta a fazer: de quanto para quanto?
2. Reais de 2019 comparados com reais de 2026#
O saldo do crédito livre a pessoas físicas era de R$ 0,96 trilhão em janeiro de 2019 e chegou a R$ 2,57 trilhões em agosto de 2026: crescimento de 167%. Em séries longas de valores em reais, esse é o número que costuma ir para o slide.

Nesse período, a inflação medida pelo IPCA acumulou cerca de 50%. Corrigido pela inflação, o saldo de janeiro de 2019 equivale a R$ 1,44 trilhão em valores de agosto de 2026, e o crescimento real é de 79%. Continua sendo um crescimento grande, mas é menos da metade do que o número nominal sugere.

O mesmo vale para arrecadação, recuperação de crédito, despesas de cobrança e qualquer outro valor em reais comparado entre anos. Até em comparações de 12 meses a inflação conta: um ano de IPCA de 5% transforma estabilidade em “crescimento de 5%”.
A pergunta a fazer: esse crescimento é real ou nominal?
No Excel: baixe o índice do IPCA (série 433 do Banco Central, variação mensal), monte o número-índice acumulado numa coluna e divida cada valor pelo índice do seu mês, multiplicando pelo índice do mês de referência. Diga no gráfico em reais de que mês estão os valores.
3. Taxa que cai porque a carteira cresceu#
A taxa de inadimplência é uma divisão: o saldo em atraso sobre o saldo total. Ela cai quando o atraso diminui, mas também cai quando a carteira cresce mais rápido que o atraso. Em carteira de crédito, crescimento rápido produz exatamente isso por um tempo: os contratos novos entram no denominador no primeiro dia e só podem atrasar meses depois.
Entre dezembro de 2023 e dezembro de 2024, a inadimplência do crédito livre a pessoas físicas caiu de 5,73% para 5,40%.

No mesmo ano, o saldo em atraso não caiu: subiu 6,2%. A taxa caiu porque o saldo total cresceu 12,7%. Nos 20 meses seguintes, o saldo em atraso acumulou alta de 87% desde dezembro de 2023, contra 34% da carteira, e a taxa chegou a 8,01%.

O gráfico não mostra que o crescimento de 2024 causou a piora seguinte; juros, renda e outros fatores mudaram no período. Mostra que a queda da taxa em 2024 não era sinal de carteira melhor. Dentro de uma empresa, a forma de separar os dois efeitos é a análise por safra: acompanhar cada grupo de contratos concedidos no mesmo mês ao longo do tempo, para que a inadimplência de uma safra nova não seja diluída pelo volume de contratos que ainda não tiveram tempo de atrasar.
A pergunta a fazer: o saldo em atraso caiu, ou só a carteira cresceu?
4. O total que contradiz as partes#
Entre setembro de 2013 e setembro de 2016, a inadimplência total das pessoas físicas caiu de 4,45% para 4,23%. Um slide com esse número diz que a carteira melhorou.

No mesmo período, a inadimplência subiu nas duas partes que compõem esse total: de 6,09% para 6,31% no crédito com recursos livres e de 1,93% para 1,99% no crédito com recursos direcionados, onde está a maior parte do financiamento imobiliário. O total caiu porque a parte com taxa baixa cresceu: o crédito direcionado passou de 39% para 48% do saldo das pessoas físicas.

Esse efeito tem nome: paradoxo de Simpson. Ele aparece sempre que o total é uma média ponderada e os pesos mudam. Em cobrança, é comum quando a composição da carteira muda: mais contratos de um produto de baixo risco, uma safra nova grande, a entrada de um cliente com perfil diferente. A recuperação total melhora, e ninguém melhorou de fato.
A pergunta a fazer: a melhora aparece em cada segmento, ou só no total?
No Excel e no PowerPoint: o gráfico de inclinação, com só dois pontos no tempo, é um gráfico de linhas comum com duas categorias. Coloque o total e as partes no mesmo gráfico, com os rótulos de dados nas pontas. Para medir quanto da variação vem da mudança de peso, use a decomposição em taxa e composição descrita no artigo sobre gráficos.
5. Variação de um mês tratada como tendência#
Em junho de 2026, a inadimplência do crédito livre a pessoas físicas caiu de 7,56% para 7,37%. Para uma reunião mensal de resultado, a manchete é fácil.

Em julho, a taxa subiu para 7,78%. A queda de junho foi uma de 15 quedas mensais nos últimos 36 meses, e a variação de um mês para o outro, nesse período, oscila tipicamente cerca de 0,15 p.p. para cima ou para baixo. Enquanto isso, a média de 12 meses subiu em todos os meses do último ano, de 6,03% para 7,31%.

Uma variação mensal só vira notícia quando sai do tamanho habitual da oscilação, ou quando se repete por vários meses. Para saber o tamanho habitual, basta olhar as variações mensais dos últimos dois ou três anos. Em material mensal, a linha da média de 12 meses ao lado da série mês a mês mostra a tendência sem esconder o mês.
A pergunta a fazer: essa variação é maior que a oscilação normal de um mês?
No Excel: a média de 12 meses é uma coluna com =MÉDIA() das 12 células anteriores; no gráfico de linhas, ela entra como segunda série. Para o tamanho habitual da oscilação, =DESVPAD.P() das variações mensais dá uma régua simples.
6. Mês contra o mês anterior numa série sazonal#
As concessões de crédito livre a pessoas físicas caíram de R$ 332 bilhões em janeiro de 2026 para R$ 304 bilhões em fevereiro, queda de 8,2%.

Fevereiro tem menos dias úteis e, na maioria dos anos, o Carnaval. Nas concessões, fevereiro foi menor que janeiro em 13 dos 14 anos desde 2013, e março foi maior que fevereiro em 13 dos 14. Contra fevereiro de 2025, as concessões de fevereiro de 2026 subiram 4,1%.

Cobrança tem o mesmo problema, com outro calendário: dezembro com décimo terceiro, janeiro com IPVA, IPTU e material escolar, meses com cinco segundas-feiras. Comparar com o mesmo mês do ano anterior tira a maior parte do efeito; o acumulado de 12 meses tira o resto. Quando a comparação com o mês anterior for inevitável, diga se ela é comum para aquele mês.
A pergunta a fazer: esse mês costuma ser assim?
No Excel e no PowerPoint: o gráfico com uma linha por ano é um gráfico de linhas com os meses nas categorias e os anos nas séries. Destaque só o ano atual e deixe os anteriores em cinza.
As seis perguntas#
Para quem recebe a apresentação, os seis erros viram seis perguntas:
- De quanto para quanto?
- Esse crescimento é real ou nominal?
- O saldo em atraso caiu, ou só a carteira cresceu?
- A melhora aparece em cada segmento, ou só no total?
- Essa variação é maior que a oscilação normal de um mês?
- Esse mês costuma ser assim?
Para quem prepara, a melhor forma de usá-las é responder a cada uma no próprio material, antes que alguém pergunte. Uma resposta curta no slide ou uma página no anexo basta.
Fontes#
Todos os dados são do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, consultados em outubro de 2026, com dados até agosto de 2026: inadimplência do crédito livre a pessoas físicas (série 21112), do crédito direcionado (21145) e do total das pessoas físicas (21084); saldos do crédito livre (20570), direcionado (20606) e total (20541) às pessoas físicas; concessões de crédito livre às pessoas físicas (20662); e IPCA, variação mensal (433). O saldo em atraso é o saldo multiplicado pela taxa de inadimplência, que considera atrasos acima de 90 dias.


