Causas da inadimplência: 6 erros de quem só olha a cobrança
Quando a causa da inadimplência está fora da cobrança, a régua não resolve: seis erros ao explicar o resultado só com indicadores de cobrança, e a correção.

Neste artigo
Nem toda inadimplência é um problema de cobrança. Quando a causa está em outra área (o cliente não chegou a usar o serviço, discorda da conta, recebeu um boleto errado, está insatisfeito com o atendimento), os indicadores de cobrança não mostram essa causa, e as soluções de cobrança não mudam o resultado. Quem apresenta o resultado com os números da cobrança tende a explicar tudo com eles, e é aí que aparecem os seis erros deste texto.
Os exemplos vêm de uma situação comum em instituições de ensino: o calouro que nunca entrou na sala de aula nem acessou o ambiente virtual, e que não paga a mensalidade. Para ele, a dívida não corresponde a nada que tenha usado, e uma régua de cobrança mais intensa não muda isso. Os slides e fluxos de exemplo não usam dados de nenhuma instituição; o único dado é público, de reclamações registradas no consumidor.gov.br.
Este é o quinto texto da série. Os anteriores tratam de qual gráfico usar, da ordem dos slides, de erros de leitura dos indicadores e de armadilhas nas comparações.
1. Procurar a causa só onde a cobrança tem dados#
A área de cobrança mede contato, promessa de pagamento, acordo, recuperação. Quando a inadimplência sobe, o slide de causas costuma ser feito com esses números, porque são os que estão à mão. É a velha história de quem procura a chave embaixo do poste, não porque a perdeu ali, mas porque ali tem luz.

Os três itens podem ser verdadeiros e, ainda assim, consequência de outra coisa: se parte dos calouros nunca começou o curso, o contato cai porque eles não atendem, e a promessa não vem porque eles não se consideram devedores. A correção é listar primeiro as causas possíveis, cada uma com o dado que a confirmaria e a área que tem esse dado. Só depois escolher quais investigar.

A tabela deixa visível que a cobrança tem os dados de duas das cinco hipóteses. Isso não é um defeito da análise; é a informação mais importante do slide.
A pergunta a fazer: que causas possíveis estão fora dos dados da cobrança?
2. Tratar todo inadimplente como “não pode” ou “não quer”#
A segmentação mais usada em cobrança cruza capacidade e disposição de pagar: quem pode e quer, quem pode e não quer, quem não pode e quer, quem não pode e não quer. Cada quadrante recebe uma estratégia.

Um estudo da Universidade de Bristol sobre o não pagamento de contas, “Can’t pay or won’t pay?”, de Nicola Dominy e Elaine Kempson, entrevistou devedores e credores e encontrou grupos que não cabem nessa matriz. Quem está em disputa com o credor e retém o pagamento até resolver, quem é desorganizado com as contas e quem atrasa por falha administrativa de terceiros não são, para os autores, nem “não pode” nem “não quer”. E, entre os que não querem pagar, há quem retenha o pagamento por princípio, por achar o serviço ruim ou caro.

O mesmo estudo compara credores. Os que investigam as circunstâncias de quem atrasa antes de decidir o tratamento distinguem melhor quem não pode de quem não quer do que os que aplicam o mesmo procedimento a todos os clientes. Numa apresentação, isso vira uma pergunta simples para cada segmento: a causa desse grupo é algo que a cobrança resolve?
A pergunta a fazer: esse inadimplente não pode, não quer, ou tem outro motivo?
3. Régua de cobrança para quem nunca começou#
O calouro que se matriculou e nunca apareceu é tratado, na cobrança, como qualquer outro inadimplente: SMS, ligação, acordo com desconto, escritório de cobrança.

A literatura sobre evasão tem um nome para esse aluno. Uma revisão sobre evasão na educação a distância, de Josué Laguardia e Margareth Portela, distingue a interrupção temporária, o abandono depois de começar e o abandono sem começar: o non-starter. Para ele, a mensalidade cobra por algo que nunca usou. A cobrança fala com alguém que, na prática, não se vê como aluno, e a resposta mais provável ao SMS é nenhuma.
Nas reclamações públicas, o mesmo padrão aparece por outro ângulo. Das 16.362 reclamações sobre ensino superior finalizadas em 2025 no consumidor.gov.br, a plataforma de reclamações do Ministério da Justiça, 2.700 tratam de cobrança para alterar ou cancelar o contrato, 713 de cobrança por serviço não fornecido e 616 de dificuldade para cancelar: juntas, uma em cada quatro (gráfico no erro 4). A base não diz se quem reclama é calouro nem se chegou a ir a alguma aula. Mostra que ser cobrado depois de pedir o cancelamento, ou por um serviço que a pessoa diz não ter recebido, está entre os motivos de reclamação mais comuns.
A correção é separar, antes da régua, quem nunca começou. Para esse grupo, a primeira conversa é da área acadêmica e trata de outra pergunta: a pessoa quer ser aluno? Se quiser, o problema é de recepção e de acesso. Se não quiser, a conversa é sobre o vínculo, conforme o contrato e a política da instituição. Nos dois casos, a régua de cobrança vem depois, se vier.

Para a cobrança, essa triagem depende de um dado que ela normalmente não tem: o primeiro acesso ou a presença. É o tipo de cruzamento que a apresentação de resultado pode pedir, como mostra o erro 5.
A pergunta a fazer: esse cliente chegou a usar o serviço?
4. Cobrar quem está reclamando#
Na mesma régua de todos entra também quem abriu um chamado no SAC ou na ouvidoria e ainda não teve resposta: o aluno que não conseguiu acesso à plataforma, que recebeu a cobrança de uma disciplina que não cursa, que pediu o cancelamento e continua recebendo boletos.

O dado público dá o tamanho do grupo. Em 69% das 16.362 reclamações sobre ensino superior finalizadas em 2025 no consumidor.gov.br, o problema registrado é de cobrança, e em 57% o consumidor contesta o próprio valor cobrado: cobrança para cancelar o contrato, negativação indevida, taxas não previstas, cobrança em duplicidade, por serviço não contratado ou não fornecido. A proporção ficou entre 63% e 76% em todos os meses do ano.

São só as reclamações levadas a essa plataforma, contra empresas que aderiram a ela, e a base não diz quantos desses consumidores estavam inadimplentes. Diz que, quando o aluno reclama fora da instituição, o assunto mais comum é a própria cobrança.
Para esse cliente, a mensagem de cobrança confirma que ninguém leu a reclamação. Em vez de pagamento, ela costuma gerar outra reclamação, às vezes fora da empresa. A correção é uma pergunta antes da régua: há chamado aberto? Se houver, a cobrança espera, a reclamação recebe uma resposta com prazo, e só depois a cobrança volta, se ainda for o caso.

Numa apresentação de resultado, isso traz para o slide um indicador que não é de cobrança: quanto do saldo em atraso tem reclamação aberta, e em quanto tempo essas reclamações são respondidas. O prazo de resposta do atendimento passa a explicar parte da inadimplência.
A pergunta a fazer: quantos desses inadimplentes têm reclamação aberta?
5. Concluir sobre outra área sem os dados dela#
Com os dados da cobrança, a análise chega até um ponto: a inadimplência dos calouros de EAD é maior e começa no primeiro boleto. A tentação é seguir adiante e concluir sobre o curso, o modelo pedagógico, o engajamento, assuntos de outra área, sem os dados dela.

A conclusão pode até estar certa, mas o slide não a sustenta, e a área que conhece o assunto vai notar isso antes de todo mundo. A correção é parar onde os dados param: dizer o que a cobrança sabe, o que ela não sabe e qual dado responderia, com o nome de quem o tem e um prazo.

Uma hipótese bem formulada, com o pedido de dado, é um resultado melhor do que uma conclusão frágil. Ela leva a área dona do assunto para a conversa, em vez de colocá-la na defensiva.
A pergunta a fazer: quem tem o dado que confirmaria essa conclusão?
6. Propor uma solução que não é sua#
O último passo do mesmo erro é o plano de ação: tutores ligam para os calouros sem acesso, a coordenação manda carta de boas-vindas, e a inadimplência volta ao nível do ano anterior. Nenhuma dessas ações é da cobrança, e as áreas que as executariam não foram ouvidas.

Além de depender de outra área, o plano promete um resultado que ninguém vai conseguir medir: se a inadimplência cair no semestre seguinte, não haverá como saber se foi pela ligação, pela carta ou por qualquer outra mudança no período. A correção é uma proposta conjunta, com responsável de cada lado, um piloto com grupo de comparação sorteado e a medida combinada antes.

O sorteio é o que permite atribuir a diferença ao contato, e não ao calendário ou ao perfil de quem foi contatado, como discutido na parte sobre correlação e causa. E o slide pede uma decisão que cabe à reunião: aprovar um teste, não uma solução que ainda não se sabe se funciona.
A pergunta a fazer: quem é dono dessa solução, e como vamos saber se ela funcionou?
As seis perguntas#
- Que causas possíveis estão fora dos dados da cobrança?
- Esse inadimplente não pode, não quer, ou tem outro motivo?
- Esse cliente chegou a usar o serviço?
- Quantos desses inadimplentes têm reclamação aberta?
- Quem tem o dado que confirmaria essa conclusão?
- Quem é dono dessa solução, e como vamos saber se ela funcionou?
As três primeiras partem da análise; as três últimas, da apresentação. Todas levam ao mesmo lugar: a explicação de um resultado de cobrança costuma precisar de dados de outras áreas, e a apresentação melhora quando diz isso em vez de esconder.
Fontes#
- Nicola Dominy e Elaine Kempson, “Can’t pay or won’t pay? A review of creditor and debtor approaches to the non-payment of bills”, Personal Finance Research Centre, Universidade de Bristol, 2003 (resumo executivo). A classificação da figura do erro 2 é uma adaptação dos grupos descritos no estudo.
- Josué Laguardia e Margareth Portela, “Evasão na educação a distância”, ETD – Educação Temática Digital, v. 11, n. 1, 2009.
- Ministério da Justiça e Segurança Pública, consumidor.gov.br, dados abertos: bases mensais de reclamações finalizadas de janeiro a dezembro de 2025, assunto Educação, ensino superior (graduação e pós). Agregado por problema, sem identificar empresas; a divisão entre o que contesta o valor cobrado, outro problema de cobrança e fora da cobrança é do artigo.


