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Indicadores de inadimplência no Brasil: outubro de 2026

Indicadores de inadimplência no Brasil em outubro de 2026: Banco Central, Peic, SPC e Serasa, o que cada um mede, o último número e quando sai o próximo.

Por Paulo Castilho 7 min de leitura

Esquema com o título "Indicadores de inadimplência no Brasil, outubro de 2026" e quatro cartões. Banco Central: 6,0% do crédito a pessoas físicas em atraso em agosto de 2026, seta para cima. Banco Central: 28,7% da renda vai para parcelas em julho de 2026, seta para cima. CNC (Peic): 29,6% das famílias com contas em atraso em setembro de 2026, seta para baixo. SPC Brasil: 75,05 milhões de negativados em setembro de 2026, seta para cima. Rodapé: as setas indicam a variação em 12 meses.
Neste artigo

Os indicadores de inadimplência no Brasil publicados até 28 de outubro de 2026 mostram alta na carteira de crédito e no número de negativados. No Banco Central, 6,0% do crédito a pessoas físicas estava com atraso acima de 90 dias em agosto, o maior valor da série iniciada em 2011. O SPC Brasil contou 75,05 milhões de negativados em setembro, e a Serasa, 83,98 milhões em agosto. A pesquisa da CNC com as famílias aponta o contrário: 29,6% tinham contas em atraso em setembro, menos que os 30,5% de um ano antes. Este artigo reúne os quatro levantamentos, explica o que cada um mede e diz quando sai o próximo número.

Os números mais recentes, em uma tabela#

IndicadorFonteÚltimo dadoValorEm 12 meses
Crédito total com atraso acima de 90 diasBanco Centralago/20265,0%+0,9 p.p.
Crédito a pessoas físicas com atraso acima de 90 diasBanco Centralago/20266,0%+1,1 p.p.
Crédito livre a pessoas físicas com atraso acima de 90 diasBanco Centralago/20268,0%+1,0 p.p.
Crédito a empresas com atraso acima de 90 diasBanco Centralago/20263,3%+0,5 p.p.
Renda das famílias comprometida com parcelasBanco Centraljul/202628,7%+1,4 p.p.
Dívida bancária das famílias sobre a renda de 12 mesesBanco Centraljul/202649,9%+1,1 p.p.
Famílias com contas ou dívidas em atrasoCNC (Peic)set/202629,6%−0,9 p.p.
Famílias que dizem não ter como pagar o atrasoCNC (Peic)set/202612,5%−0,5 p.p.
NegativadosSPC Brasil e CNDLset/202675,05 milhões+4,4%
NegativadosSerasaago/202683,98 milhõesnão divulgado

As variações do Banco Central e da Peic estão em pontos percentuais, a diferença entre duas taxas. A do SPC Brasil é uma variação percentual do número de pessoas, calculada pelo blog a partir dos comunicados de setembro de 2025 (71,86 milhões) e de setembro de 2026. A diferença entre as duas medidas está no artigo sobre erros comuns na leitura de indicadores financeiros.

Banco Central: a inadimplência da carteira de crédito#

O Banco Central mede a parcela do saldo de crédito do sistema financeiro com pelo menos uma parcela atrasada há mais de 90 dias. A base são os dados que os bancos informam ao Banco Central, e o número sai uma vez por mês, cerca de quatro semanas depois do fim do mês de referência. Os últimos números estão na nota de 29 de setembro de 2026, com dados de agosto.

Em agosto, a inadimplência do crédito total ficou em 5,0%. Nas pessoas físicas, foi a 6,0%, alta de 0,2 ponto no mês e de 1,1 ponto em 12 meses; nas empresas, ficou estável em 3,3%. No crédito livre às famílias, que reúne cartão, cheque especial, crédito pessoal e veículos, a taxa chegou a 8,0%. Os 6,0% e os 8,0% são os maiores valores das duas séries, que começam em março de 2011, segundo o Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central (séries 21084 e 21112).

Parte dessa alta vem de uma mudança de regra. Desde janeiro de 2025, a Resolução CMN 4.966 mudou a forma como os bancos classificam e baixam os créditos problemáticos. O Relatório de Política Monetária de setembro de 2026 estima que os novos critérios respondem por cerca de 40% do aumento da inadimplência entre dezembro de 2024 e junho de 2026. Quem compara agosto de 2026 com 2023 ou 2024 compara números apurados por regras diferentes.

O Relatório de Estabilidade Financeira divulgado em 27 de outubro de 2026 traz outro recorte. Em junho de 2026, 20,3 milhões de pessoas estavam em endividamento de risco, 17% dos devedores do sistema financeiro e 75% a mais que em junho de 2021 (p. 77). Entra nessa conta quem atende a dois ou mais de quatro critérios: atraso acima de 90 dias, mais da metade da renda mensal comprometida com dívidas, uso ao mesmo tempo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo do cartão, e renda abaixo da linha de pobreza depois de pagar as dívidas (p. 72). Como o atraso é só um dos critérios, nem todas essas pessoas estão inadimplentes. No mesmo relatório, os ativos problemáticos do crédito às famílias estão no maior nível desde 2012 na maioria das modalidades.

Endividamento e comprometimento de renda#

Dois indicadores do Banco Central medem o peso da dívida, e não o atraso. O endividamento é o saldo das dívidas das famílias com o sistema financeiro dividido pela renda dos últimos 12 meses: 49,9% em julho de 2026. O comprometimento de renda é a parte da renda mensal que vai para juros e amortização: 28,7% em julho, o maior valor desde o início da série, em 2005.

Com mais renda presa às parcelas, sobra menos para absorver uma despesa inesperada. O artigo sobre os motivos da inadimplência no Brasil trata desse peso como causa de atraso de quem quer pagar e não consegue.

Gráfico em três painéis com o título “A inadimplência no crédito e o peso das parcelas subiram em 12 meses; as famílias com contas em atraso diminuíram”. No primeiro, a inadimplência acima de 90 dias no crédito a pessoas físicas, do Banco Central, sobe de 4,9% em agosto de 2025 para 6,0% em agosto de 2026. No segundo, a renda das famílias comprometida com parcelas de dívidas bancárias sobe de 27,3% em julho de 2025 para 28,7% em julho de 2026. No terceiro, as famílias com contas ou dívidas em atraso, da Peic/CNC, caem de 30,5% em setembro de 2025 para 29,6% em setembro de 2026. Cada painel tem escala própria.

CNC: famílias com contas em atraso (Peic)#

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio, é uma entrevista mensal com famílias. Ela pergunta se a família tem dívidas, se tem contas ou dívidas em atraso e se terá condições de pagá-las. Entram dívidas que o Banco Central não mede, como carnê de loja e cheque pré-datado, e qualquer atraso conta, sem o corte de 90 dias.

Na edição de setembro de 2026, publicada em 8 de outubro, 81,7% das famílias tinham dívidas, primeira queda desde dezembro de 2025. As famílias com contas em atraso eram 29,6%, o menor nível desde março, e 12,5% disseram que não terão como pagar. O tempo médio de atraso subiu para 65,3 dias, o maior desde novembro de 2024, e 48,9% das contas vencidas estavam atrasadas havia mais de 90 dias.

A Peic e o Banco Central andaram em direções opostas em 12 meses porque medem coisas diferentes. A Peic conta famílias com qualquer atraso; o Banco Central mede o saldo em reais com atraso acima de 90 dias, e parte da alta dele vem da Resolução 4.966. Uma parcela menor de famílias em atraso, com atrasos mais longos, é compatível com mais saldo vencido há mais de 90 dias.

Negativados: SPC Brasil e Serasa#

Os birôs de crédito contam pessoas com pelo menos uma dívida registrada como negativada nas suas bases. O número depende de quais credores informam a cada birô, e por isso SPC Brasil e Serasa chegam a totais diferentes. Os dois números não se comparam nem se somam.

Segundo a CNDL e o SPC Brasil, o país tinha 75,05 milhões de negativados em setembro de 2026, 44,67% dos adultos. A dívida média por pessoa era de R$ 5.240,29, com 2,36 credores. Os bancos respondiam por 65,95% das dívidas, e o número de dívidas cresceu 13,62% em 12 meses, mais que o de pessoas. Em setembro de 2025, eram 71,86 milhões.

A Serasa registrou 83,98 milhões de negativados em agosto de 2026, alta de 0,06% sobre julho, a menor do ano. No mesmo comunicado, a empresa informa 19,7 milhões de acordos de renegociação entre maio e agosto, 36% a mais que no mesmo período de 2025.

Quando sai cada indicador#

Datas das últimas edições, que servem de referência para as próximas:

IndicadorÚltima divulgaçãoMês de referênciaPróxima edição
Banco Central, estatísticas de crédito29/9/2026agostodados de setembro, ainda não divulgados em 28/10
Banco Central, Relatório de Estabilidade Financeira27/10/20261º semestresemestral
CNC, Peic8/10/2026setembrooutubro, no início de novembro
SPC Brasil e CNDL20/10/2026setembrooutubro, em novembro
Serasa, Mapa da Inadimplênciasetembro de 2026agostosetembro, ainda não divulgado em 28/10

Como usar esses números numa apresentação#

Cada indicador responde a uma pergunta. Para o risco da carteira de crédito, use o Banco Central, com a ressalva da Resolução 4.966 em qualquer comparação com 2024 ou antes. Para o comportamento das famílias com todas as contas, use a Peic. Para o tamanho do público negativado, use um birô e mantenha o mesmo nas comparações ao longo do tempo.

Ao comparar períodos, use o mesmo mês do ano anterior, porque a inadimplência tem sazonalidade, e diga se a variação está em pontos percentuais ou em porcentagem. Os cuidados com comparações estão no artigo sobre armadilhas na análise de indicadores.

Fontes#

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