Perfil do inadimplente: o que o estudo de Bristol mostrou
O estudo da Universidade de Bristol que dividiu o perfil do inadimplente em quem não pode pagar, quem não quer e quem não é nenhum dos dois, e o que ele não mediu.

Neste artigo
Em 2003, pesquisadoras da Universidade de Bristol entrevistaram devedores e credores para responder a uma pergunta do governo britânico: por que as pessoas não pagam o que devem? O estudo organizou a resposta num mapa de duas dimensões, a capacidade e o compromisso de pagar. A maioria de quem atrasa quer pagar e não consegue. Uma minoria pode e não quer. E uma parte não é nenhum dos dois: está em disputa com o credor, é desorganizada com as contas ou foi vítima de um erro de terceiros. O estudo mostrou também que os credores diferem muito na capacidade de distinguir uns dos outros, e que os que menos distinguem são os que mais levam à Justiça quem não tem como pagar.
Este é o ponto de partida da série. As próximas partes tratam de cada grupo de devedores no Brasil de 2025 e 2026 e de como o credor descobre quem é quem. O estudo já apareceu no blog no artigo sobre causas da inadimplência que a cobrança não resolve; aqui ele é lido por inteiro.
Por que o estudo foi feito#
O relatório “Can’t pay or won’t pay? A review of creditor and debtor approaches to the non-payment of bills”, de Nicola Dominy e Elaine Kempson, do Centro de Pesquisa em Finanças Pessoais da Universidade de Bristol, foi encomendado pelo departamento britânico responsável pela Justiça civil, que revisava as regras de execução de dívidas. A revisão tinha concluído que o sistema não sabia separar quem tinha condições de pagar de quem não tinha: uns eram perseguidos por dívidas impagáveis, outros, que conheciam as fraquezas do sistema, escapavam.
Os conselheiros de dívida, de seu lado, diziam que o grande grupo de devedores profissionais era um mito. O relatório registra a divergência e conclui que ninguém sabia quantos eram os que não querem pagar.
Como foi feito#
O estudo é qualitativo, de entrevistas longas, sem pretensão de medir proporções. A base foi:
- a reanálise de 49 entrevistas de quatro pesquisas anteriores, escolhidas entre pessoas que tinham dinheiro para pagar e não pagaram;
- 15 entrevistas novas com devedores já em fase de cobrança judicial, indicados por uma empresa de cartão de crédito e uma de serviços públicos;
- 20 entrevistas com funcionários de cobrança de 10 credores: dois de cartão, dois de empréstimo, dois de financiamento imobiliário, duas prefeituras e duas empresas de serviços públicos. Em cada par, um credor que se esforçava para distinguir os devedores e um que não se esforçava;
- 10 entrevistas com associações do setor e reguladores, e 2 com conselheiros de dívida.
As entrevistas com devedores levavam de uma hora e meia a duas horas e exigiam muita checagem, porque as histórias mudavam no meio da conversa.
A maioria não pode pagar#
O estudo parte do que já se sabia. Num levantamento de 2002 com pessoas que tinham atrasado contas nos doze meses anteriores, 42% atribuíram o atraso a uma queda de renda, e 15% à renda baixa. Esquecer ou reter o pagamento foi o motivo de 12%, cerca de 1 em 8, e um erro do credor, em disputa, de 6%.

Três observações do relatório ajudam a ler esse número. A proporção de quem pode e não paga cresce nas fases finais da cobrança, porque os que podiam pagar e queriam já pagaram antes. Ela muda de um credor para outro e ao longo do ciclo econômico: na recessão, cresce a parte dos que não conseguem. E ela muda com o tipo de conta. No Reino Unido de então, as contas com menos prioridade eram o imposto municipal, a conta de água e o cartão de crédito. A recusa em pagar a água cresceu em meados dos anos 1990, quando os jornais publicavam os salários dos executivos das empresas recém-privatizadas enquanto as tarifas subiam.
Capacidade de pagar: três momentos#
A primeira contribuição do estudo é separar a capacidade de pagar no tempo. Há quem tinha o dinheiro quando atrasou e ainda tem quando o credor chega à fase final da cobrança. Há quem nunca teve. E há quem tinha quando atrasou, mas perdeu a renda no caminho. A mesma pessoa pode mudar de grupo entre o primeiro boleto vencido e a ação judicial.
Compromisso de pagar: quem quer, quem não quer e quem não é nenhum dos dois#
A segunda contribuição é separar a intenção de pagar da capacidade. O estudo descreve três situações típicas de quem quer pagar e não consegue: renda baixa por muito tempo, somada a uma despesa inesperada; uma queda grande e repentina de renda; e um problema de saúde mental que prejudica a gestão do dinheiro. Algumas dessas pessoas parecem não querer pagar, porque quitam tudo quando recebem a citação judicial. Na verdade, pegaram o dinheiro emprestado com a família ou no mercado.
Do outro lado, quatro perfis com pouca ou nenhuma intenção de pagar em dia:
- Quem retém o pagamento por princípio. Não deixa de pagar todas as contas, só uma, por achar que o serviço é ruim ou caro demais. No estudo, um construtor que tinha dinheiro de sobra recusava a conta de água porque a tarifa triplicara sem melhora no serviço.
- O ex-parceiro que retém. Continua responsável por contas da antiga casa e deixa de pagá-las.
- Quem trabalha o sistema. Paga tudo, mas no último momento possível, e conhece em detalhe as etapas da cobrança de cada credor. Para os credores entrevistados, é o maior grupo entre os que podem pagar. Um dos entrevistados contou que, com dívidas de cartão maiores, consegue quitar por cerca de 60% do valor, porque a empresa prefere receber de uma vez.
- Quem foge da responsabilidade. Acumulou dívidas grandes em cartões e empréstimos e culpa os bancos por terem emprestado. Os credores de crédito reconheciam o grupo, diziam que ele crescia e admitiam parte da responsabilidade: limites aumentados sem consulta a birôs de crédito.
E três situações que o estudo diz não serem nem “não pode” nem “não quer”, tenha a pessoa dinheiro ou não:
- Disputa com o credor. Um casal que perdeu renda depois do nascimento de um filho com paralisia cerebral fez acordos com todos os credores, menos com a empresa de água, que recusava os pagamentos parciais e chegou a devolver os cheques. O casal parou de pagar.
- Desorganização. Paga algumas contas em dia e outras não, sem intenção de atrasar. Os credores reconheciam o grupo e diziam que o débito automático resolve a maior parte dos casos.
- Falha administrativa de terceiros. Inquilinos processados por aluguel atrasado porque o auxílio-moradia, pago pela prefeitura direto ao proprietário, não tinha sido depositado. Numa pesquisa oficial citada no relatório, 35% dos inquilinos de habitação social com aluguel atrasado apontaram problemas com esse benefício.
O mapa#
O cruzamento das duas dimensões é a tabela mais citada do estudo. Os perfis sem intenção de pagar viram “não quer” quando têm o dinheiro, e “não quer, mas não pode” quando não têm. Disputa e desorganização ficam fora da divisão. Quem perdeu renda, quem vive com renda baixa e quem tem um problema de saúde mental são “não pode”.

Para a categoria do meio, “não quer, mas não pode”, o estudo registra o que os melhores credores faziam: não acionar a Justiça enquanto não há dinheiro, acompanhar a dívida e voltar a cobrar quando a situação melhorar.
Três formas de cobrar#
A outra metade do estudo olha para os credores, e a conclusão é que a forma de cobrar não depende do setor. Credores de todos os tipos, bancos, empresas de serviços públicos, prefeituras e financeiras, se dividiam em três abordagens.

O credor holístico liga em vez de mandar carta, porque o telefonema permite perguntar por que o pagamento não veio. Monta planos de pagamento realistas e recusa ofertas que o cliente não vai conseguir cumprir, depois de ter aprendido que aceitar qualquer oferta só adiava o problema. Suspende a cobrança enquanto resolve uma disputa. E testa mudanças no procedimento em uma parte dos clientes antes de adotá-las para todos, comparando o resultado com o procedimento em vigor, o mesmo raciocínio do piloto com grupo de comparação da série anterior.
O credor de negócio duro também investe em sistemas, mas para reduzir o custo da cobrança. Parte da premissa de que quem não faz contato está fugindo da dívida e usa modelos estatísticos para acelerar esses clientes até a ação judicial. Um gerente de cobrança de banco contou que sua área entrava com 800 ações por mês e não sabia nada sobre a situação de metade dos devedores.
O credor de procedimento único manda as mesmas cartas, nos mesmos prazos, para todos. Não tem como saber quem não pode pagar e conta com a Justiça para descobrir.
O que fez quem podia pagar pagar#
Para os que podem pagar e deixam para depois, a ameaça crível costuma bastar. Um credor de financiamento imobiliário estimou que de 30% a 40% dos clientes respondem à carta que anuncia a ação judicial, e mais 10% quando a data da audiência é marcada. Uma empresa de cartão estimou que metade dos que recebem o aviso de envio à cobrança terceirizada faz contato e fecha acordo. Para os que o estudo chama de endurecidos, nem a ameaça nem a ação mudam o comportamento, e o melhor que o credor pode fazer é recuperar o que der pelo menor custo.
O que o estudo propôs#
A conclusão central é de responsabilidade: cabe ao credor descobrir a situação de quem deve e evitar levar à Justiça quem não pode pagar, sem tirar do devedor a obrigação de pagar quando tem como. Para isso, o relatório propôs códigos de conduta com princípios gerais e orientação detalhada de aplicação, fiscalizados por um órgão independente; o registro, antes de cada ação judicial, de que o código foi seguido; e um papel formal para os conselheiros de dívida independentes, que ajudam a identificar quem não pode pagar e quem tem problemas de saúde mental.
O que o estudo não conseguiu medir#
O estudo nasceu como um teste para uma pesquisa quantitativa, que contaria quantos devedores são de cada tipo. As autoras concluíram que essa pesquisa seria muito difícil.

Os registros judiciais não têm a informação necessária, porque a diferença entre não poder e não querer está em atitudes e hábitos. Os credores relutavam em ceder amostras por causa da lei de proteção de dados. E os devedores que menos querem pagar são justamente os mais difíceis de encontrar e os que menos aceitam falar, o que distorce qualquer amostra. Por isso, a divisão entre “não pode” e “não quer” continua difícil de medir.
O que isso tem a ver com o Brasil#
O corte do estudo aparece nas regras brasileiras. Desde 2024, as regras de tratamento e negociação de dívidas da autorregulação bancária da Febraban estão na consolidação dos normativos de relacionamento com o consumidor (normativo SARB 27/2023, que absorveu o antigo SARB 18/2017). O texto diz que essas medidas “não se aplicam aos casos de fraude ou má-fé” e lista entre os princípios a sustentabilidade do acordo e a concessão responsável do crédito. A regra separa quem não pode de quem não quer e traz o mesmo problema que Bristol apontou: alguém precisa descobrir, caso a caso, de que lado está o devedor.
As próximas partes da série fazem essa pergunta com dados brasileiros: quem não pode pagar no Brasil de 2026, quem não quer, quem não é nenhum dos dois, como o credor descobre a diferença e quando deve parar de cobrar.
Fonte#
Nicola Dominy e Elaine Kempson, “Can’t pay or won’t pay? A review of creditor and debtor approaches to the non-payment of bills”, Personal Finance Research Centre, Universidade de Bristol, para o Lord Chancellor’s Department, março de 2003 (relatório completo; há também um resumo executivo). Os números sobre motivos de atraso são de Kempson (2002), citados no relatório.


