Pular para o conteúdo
Blog AreaCli

Negócios

Perfil do inadimplente: o que o estudo de Bristol mostrou

O estudo da Universidade de Bristol que dividiu o perfil do inadimplente em quem não pode pagar, quem não quer e quem não é nenhum dos dois, e o que ele não mediu.

Por Paulo Castilho 10 min de leitura

Esquema com o título "Quem atrasa: não pode, não quer ou nenhum dos dois". Uma grade cruza duas perguntas, quer pagar e tem como pagar: quem quer e não tem como é "não pode"; quem quer e tem como paga em dia; quem não quer e não tem como é "não quer, mas não pode"; quem não quer e tem como é "não quer". Ao lado, num quadro tracejado, o grupo "nenhum dos dois": disputa com o credor, desorganização e erro de terceiros.
Neste artigo

Em 2003, pesquisadoras da Universidade de Bristol entrevistaram devedores e credores para responder a uma pergunta do governo britânico: por que as pessoas não pagam o que devem? O estudo organizou a resposta num mapa de duas dimensões, a capacidade e o compromisso de pagar. A maioria de quem atrasa quer pagar e não consegue. Uma minoria pode e não quer. E uma parte não é nenhum dos dois: está em disputa com o credor, é desorganizada com as contas ou foi vítima de um erro de terceiros. O estudo mostrou também que os credores diferem muito na capacidade de distinguir uns dos outros, e que os que menos distinguem são os que mais levam à Justiça quem não tem como pagar.

Este é o ponto de partida da série. As próximas partes tratam de cada grupo de devedores no Brasil de 2025 e 2026 e de como o credor descobre quem é quem. O estudo já apareceu no blog no artigo sobre causas da inadimplência que a cobrança não resolve; aqui ele é lido por inteiro.

Por que o estudo foi feito#

O relatório “Can’t pay or won’t pay? A review of creditor and debtor approaches to the non-payment of bills”, de Nicola Dominy e Elaine Kempson, do Centro de Pesquisa em Finanças Pessoais da Universidade de Bristol, foi encomendado pelo departamento britânico responsável pela Justiça civil, que revisava as regras de execução de dívidas. A revisão tinha concluído que o sistema não sabia separar quem tinha condições de pagar de quem não tinha: uns eram perseguidos por dívidas impagáveis, outros, que conheciam as fraquezas do sistema, escapavam.

Os conselheiros de dívida, de seu lado, diziam que o grande grupo de devedores profissionais era um mito. O relatório registra a divergência e conclui que ninguém sabia quantos eram os que não querem pagar.

Como foi feito#

O estudo é qualitativo, de entrevistas longas, sem pretensão de medir proporções. A base foi:

  • a reanálise de 49 entrevistas de quatro pesquisas anteriores, escolhidas entre pessoas que tinham dinheiro para pagar e não pagaram;
  • 15 entrevistas novas com devedores já em fase de cobrança judicial, indicados por uma empresa de cartão de crédito e uma de serviços públicos;
  • 20 entrevistas com funcionários de cobrança de 10 credores: dois de cartão, dois de empréstimo, dois de financiamento imobiliário, duas prefeituras e duas empresas de serviços públicos. Em cada par, um credor que se esforçava para distinguir os devedores e um que não se esforçava;
  • 10 entrevistas com associações do setor e reguladores, e 2 com conselheiros de dívida.

As entrevistas com devedores levavam de uma hora e meia a duas horas e exigiam muita checagem, porque as histórias mudavam no meio da conversa.

A maioria não pode pagar#

O estudo parte do que já se sabia. Num levantamento de 2002 com pessoas que tinham atrasado contas nos doze meses anteriores, 42% atribuíram o atraso a uma queda de renda, e 15% à renda baixa. Esquecer ou reter o pagamento foi o motivo de 12%, cerca de 1 em 8, e um erro do credor, em disputa, de 6%.

Gráfico de barras com o título “A maioria atrasa porque a renda caiu ou é baixa; 1 em 8 esqueceu ou reteve o pagamento”. Motivo do atraso em contas da casa ou de crédito, em porcentagem de 208 pessoas com atraso nos 12 meses anteriores, no Reino Unido: queda de renda, 42%, dividida em demissão (18%), outra queda (12%), doença ou deficiência (6%) e separação (6%); renda baixa, 15%; esqueceu ou reteve o pagamento, 12%; despesa maior ou inesperada, 11%; compromissos demais, 9%; erro do credor, em disputa, 6%; dívida deixada por ex-parceiro, 2%; outro motivo, 3%.

Três observações do relatório ajudam a ler esse número. A proporção de quem pode e não paga cresce nas fases finais da cobrança, porque os que podiam pagar e queriam já pagaram antes. Ela muda de um credor para outro e ao longo do ciclo econômico: na recessão, cresce a parte dos que não conseguem. E ela muda com o tipo de conta. No Reino Unido de então, as contas com menos prioridade eram o imposto municipal, a conta de água e o cartão de crédito. A recusa em pagar a água cresceu em meados dos anos 1990, quando os jornais publicavam os salários dos executivos das empresas recém-privatizadas enquanto as tarifas subiam.

Capacidade de pagar: três momentos#

A primeira contribuição do estudo é separar a capacidade de pagar no tempo. Há quem tinha o dinheiro quando atrasou e ainda tem quando o credor chega à fase final da cobrança. Há quem nunca teve. E há quem tinha quando atrasou, mas perdeu a renda no caminho. A mesma pessoa pode mudar de grupo entre o primeiro boleto vencido e a ação judicial.

Compromisso de pagar: quem quer, quem não quer e quem não é nenhum dos dois#

A segunda contribuição é separar a intenção de pagar da capacidade. O estudo descreve três situações típicas de quem quer pagar e não consegue: renda baixa por muito tempo, somada a uma despesa inesperada; uma queda grande e repentina de renda; e um problema de saúde mental que prejudica a gestão do dinheiro. Algumas dessas pessoas parecem não querer pagar, porque quitam tudo quando recebem a citação judicial. Na verdade, pegaram o dinheiro emprestado com a família ou no mercado.

Do outro lado, quatro perfis com pouca ou nenhuma intenção de pagar em dia:

  • Quem retém o pagamento por princípio. Não deixa de pagar todas as contas, só uma, por achar que o serviço é ruim ou caro demais. No estudo, um construtor que tinha dinheiro de sobra recusava a conta de água porque a tarifa triplicara sem melhora no serviço.
  • O ex-parceiro que retém. Continua responsável por contas da antiga casa e deixa de pagá-las.
  • Quem trabalha o sistema. Paga tudo, mas no último momento possível, e conhece em detalhe as etapas da cobrança de cada credor. Para os credores entrevistados, é o maior grupo entre os que podem pagar. Um dos entrevistados contou que, com dívidas de cartão maiores, consegue quitar por cerca de 60% do valor, porque a empresa prefere receber de uma vez.
  • Quem foge da responsabilidade. Acumulou dívidas grandes em cartões e empréstimos e culpa os bancos por terem emprestado. Os credores de crédito reconheciam o grupo, diziam que ele crescia e admitiam parte da responsabilidade: limites aumentados sem consulta a birôs de crédito.

E três situações que o estudo diz não serem nem “não pode” nem “não quer”, tenha a pessoa dinheiro ou não:

  • Disputa com o credor. Um casal que perdeu renda depois do nascimento de um filho com paralisia cerebral fez acordos com todos os credores, menos com a empresa de água, que recusava os pagamentos parciais e chegou a devolver os cheques. O casal parou de pagar.
  • Desorganização. Paga algumas contas em dia e outras não, sem intenção de atrasar. Os credores reconheciam o grupo e diziam que o débito automático resolve a maior parte dos casos.
  • Falha administrativa de terceiros. Inquilinos processados por aluguel atrasado porque o auxílio-moradia, pago pela prefeitura direto ao proprietário, não tinha sido depositado. Numa pesquisa oficial citada no relatório, 35% dos inquilinos de habitação social com aluguel atrasado apontaram problemas com esse benefício.

O mapa#

O cruzamento das duas dimensões é a tabela mais citada do estudo. Os perfis sem intenção de pagar viram “não quer” quando têm o dinheiro, e “não quer, mas não pode” quando não têm. Disputa e desorganização ficam fora da divisão. Quem perdeu renda, quem vive com renda baixa e quem tem um problema de saúde mental são “não pode”.

Mapa com o título “O mapa de Bristol: a intenção de pagar cruzada com a capacidade, em três momentos”. As colunas são: tem o dinheiro hoje; tinha ao atrasar, hoje não tem; nunca teve. Sem intenção de pagar: retém por princípio, ex-parceiro que retém e trabalha o sistema são “não quer” com dinheiro e “não quer, mas não pode” nas outras duas colunas; foge da responsabilidade é “não quer” com dinheiro e “não quer, mas não pode” na segunda coluna; retém por disputa com o credor é “nenhum dos dois” nas três. Com intenção de pagar: desorganizado é “nenhum dos dois” nas três; mudança de circunstância e renda baixa há muito tempo são “não pode” na coluna “nunca teve”; problema de saúde mental é “não pode” nas três.

Para a categoria do meio, “não quer, mas não pode”, o estudo registra o que os melhores credores faziam: não acionar a Justiça enquanto não há dinheiro, acompanhar a dívida e voltar a cobrar quando a situação melhorar.

Três formas de cobrar#

A outra metade do estudo olha para os credores, e a conclusão é que a forma de cobrar não depende do setor. Credores de todos os tipos, bancos, empresas de serviços públicos, prefeituras e financeiras, se dividiam em três abordagens.

Figura com o título “Das três formas de cobrar do estudo, só uma separa quem não pode de quem não quer pagar”, com três colunas. Holístico: vai além do código de conduta, investiga por que o cliente atrasou, separa clientes para tratar com justiça, vê o conselheiro de dívidas como aliado e trata a ação judicial como sinal de fracasso; resultado, usa menos a Justiça e só contra quem pode pagar. Negócio duro: segue o texto do código sem atender à intenção dele, faz pouco esforço para conhecer a situação, separa clientes para reduzir custo, vê o conselheiro de dívidas como obstáculo e trata a ação judicial como parte da cobrança; resultado, tenta distinguir, mas só no fim, e erra mais. Procedimento único: sem código, ou com código recente, formas de pagamento padrão, não sabe a situação do cliente, não separa clientes e trata a ação judicial como a etapa final inevitável; resultado, é quem mais leva à Justiça quem não pode pagar.

O credor holístico liga em vez de mandar carta, porque o telefonema permite perguntar por que o pagamento não veio. Monta planos de pagamento realistas e recusa ofertas que o cliente não vai conseguir cumprir, depois de ter aprendido que aceitar qualquer oferta só adiava o problema. Suspende a cobrança enquanto resolve uma disputa. E testa mudanças no procedimento em uma parte dos clientes antes de adotá-las para todos, comparando o resultado com o procedimento em vigor, o mesmo raciocínio do piloto com grupo de comparação da série anterior.

O credor de negócio duro também investe em sistemas, mas para reduzir o custo da cobrança. Parte da premissa de que quem não faz contato está fugindo da dívida e usa modelos estatísticos para acelerar esses clientes até a ação judicial. Um gerente de cobrança de banco contou que sua área entrava com 800 ações por mês e não sabia nada sobre a situação de metade dos devedores.

O credor de procedimento único manda as mesmas cartas, nos mesmos prazos, para todos. Não tem como saber quem não pode pagar e conta com a Justiça para descobrir.

O que fez quem podia pagar pagar#

Para os que podem pagar e deixam para depois, a ameaça crível costuma bastar. Um credor de financiamento imobiliário estimou que de 30% a 40% dos clientes respondem à carta que anuncia a ação judicial, e mais 10% quando a data da audiência é marcada. Uma empresa de cartão estimou que metade dos que recebem o aviso de envio à cobrança terceirizada faz contato e fecha acordo. Para os que o estudo chama de endurecidos, nem a ameaça nem a ação mudam o comportamento, e o melhor que o credor pode fazer é recuperar o que der pelo menor custo.

O que o estudo propôs#

A conclusão central é de responsabilidade: cabe ao credor descobrir a situação de quem deve e evitar levar à Justiça quem não pode pagar, sem tirar do devedor a obrigação de pagar quando tem como. Para isso, o relatório propôs códigos de conduta com princípios gerais e orientação detalhada de aplicação, fiscalizados por um órgão independente; o registro, antes de cada ação judicial, de que o código foi seguido; e um papel formal para os conselheiros de dívida independentes, que ajudam a identificar quem não pode pagar e quem tem problemas de saúde mental.

O que o estudo não conseguiu medir#

O estudo nasceu como um teste para uma pesquisa quantitativa, que contaria quantos devedores são de cada tipo. As autoras concluíram que essa pesquisa seria muito difícil.

Figura com o título “Por que o estudo não conseguiu contar quantos não podem e quantos não querem”. Dos devedores em fase final de cobrança que os pesquisadores tentaram entrevistar, 40% tinham mudado do último endereço conhecido pelo credor, e 20% não foram encontrados depois de 6 ou mais tentativas. Os 15 entrevistados, em geral, só foram alcançados depois de muitas tentativas. As respostas mudavam ao longo da entrevista, e poucos admitiam reter o pagamento de propósito; os que mais evitavam a cobrança eram também os que menos aceitavam ser entrevistados.

Os registros judiciais não têm a informação necessária, porque a diferença entre não poder e não querer está em atitudes e hábitos. Os credores relutavam em ceder amostras por causa da lei de proteção de dados. E os devedores que menos querem pagar são justamente os mais difíceis de encontrar e os que menos aceitam falar, o que distorce qualquer amostra. Por isso, a divisão entre “não pode” e “não quer” continua difícil de medir.

O que isso tem a ver com o Brasil#

O corte do estudo aparece nas regras brasileiras. Desde 2024, as regras de tratamento e negociação de dívidas da autorregulação bancária da Febraban estão na consolidação dos normativos de relacionamento com o consumidor (normativo SARB 27/2023, que absorveu o antigo SARB 18/2017). O texto diz que essas medidas “não se aplicam aos casos de fraude ou má-fé” e lista entre os princípios a sustentabilidade do acordo e a concessão responsável do crédito. A regra separa quem não pode de quem não quer e traz o mesmo problema que Bristol apontou: alguém precisa descobrir, caso a caso, de que lado está o devedor.

As próximas partes da série fazem essa pergunta com dados brasileiros: quem não pode pagar no Brasil de 2026, quem não quer, quem não é nenhum dos dois, como o credor descobre a diferença e quando deve parar de cobrar.

Fonte#

Nicola Dominy e Elaine Kempson, “Can’t pay or won’t pay? A review of creditor and debtor approaches to the non-payment of bills”, Personal Finance Research Centre, Universidade de Bristol, para o Lord Chancellor’s Department, março de 2003 (relatório completo; há também um resumo executivo). Os números sobre motivos de atraso são de Kempson (2002), citados no relatório.

Tags

Paulo Castilho

Recuperação de crédito e cobrança

Trabalha há 15 anos com recuperação de crédito e cobrança, da carteira corrente à recuperação do que já foi baixado como perda. Escreve sobre estratégia, dados e canais digitais.

Leia também